29/04/2021 às 09h39min - Atualizada em 29/04/2021 às 10h20min

Mulheres estão no centro da crise humanitária da pandemia

No Brasil, elas perderam mais postos de trabalho que os homens, viram sua renda diminuir e não podem mais contar com as redes de apoio para voltar a sustentar suas famílias

DINO
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Trabalhadora doméstica em atividade


Análise do mercado de trabalho de 2020, marcado pela pandemia, aponta que as maiores perdas estão relacionadas às mulheres. Apesar de serem maioria no mercado de trabalho (53%), amargam um desemprego maior (64,2%). Para economistas do Núcleo de Pesquisas de Economia e Gênero (NPEGen) da Facamp, as dificuldades atuais, e que antecipam uma grave crise humanitária, estão evidentes na PNADC (Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No cotidiano, a vulnerabilidade social teve início na falta da rede de apoio que as mulheres contavam para poder trabalhar fora de casa. Em quase a metade (49,5%) dos lares brasileiros ela é mãe solo ou o chefe da casa e sua rede de apoio desapareceu de um dia para o outro. Escolas fechadas, domésticas ou babás em isolamento social ou dispensadas e, por fim, as avós, outro valioso apoio, foram afastadas pelo risco de contraírem o coronavírus.

"Se ela é sozinha no domicílio com as crianças, hoje não pode sair para exercer o seu potencial e seu direito ao trabalho. Ela fica indisponível”, explica uma das autoras do estudo, a economista Daniela Gorayeb, que também relaciona o atual momento ao aumento da violência doméstica. “Independentemente de instrução, e em nome de sustentar seus filhos, as mulheres acabam se submetendo a situações que não desejariam. Não conseguem ter uma unidade domiciliar sem se submeter a pessoas provedoras. Nessa condição, elas ficam mais sujeitas à violência.”

Muitas mulheres foram empurradas para trabalhos precários, intermitentes. “Elas não podem se candidatar a exercer uma jornada completa, de 8 horas. Perderam seus empregos, mas também o direito a ir trabalhar, sem a rede de apoio. É uma fragilização não só da vida dessas mulheres, mas de um contingente enorme de pessoas ligadas a elas”, diz a professora. A falsa impressão do crescimento de contágios motivado por festas irresponsáveis minimiza o fato de que muitos trabalhadores se viram obrigados a buscar trabalho, em ônibus, trens e metrôs lotados.

A razão principal foi a redução do auxílio emergencial no último trimestre de 2020 e a inexistência dele no primeiro trimestre de 2021. Muitas mulheres voltaram a procurar trabalho. Nos números oficiais do IBGE, no fim de 2020, esse retorno forçado apontou 5% de aumento de mulheres que aparecem como desempregadas. Além disso, a maioria das que encontraram algum tipo de trabalho foi em subocupações. Acabaram no mercado informal, talvez com pequenos trabalhos (bicos) em atividades que podem exercer sem ficar muito tempo fora de casa.

A economia entre 2019 e 2020

A análise do 4º trimestre de 2020 apontou 3,2% de crescimento econômico em relação ao trimestre anterior, insuficiente para compensar o recuo acumulado do PIB, da ordem de 4,1% em relação a 2019. Os setores de serviços e da indústria foram fortemente afetados (redução de 4,5% e 3,5%, respectivamente). Em relação às mulheres, o setor de serviços, de maior redução no geral, é também um dos setores predominantemente ocupado por elas.

Domésticas, um capítulo à parte

Muitas domésticas perderam seus trabalhos. Segundo análise feita pelo NPEGen, entre 2019 e 2020 houve uma queda de 28% de empregadas com carteira assinada e 20% sem carteira. No fim de 2020, elas começaram a voltar (aumento de 10,9%), mas muitas sem carteira ou como diaristas. Hoje a categoria "trabalhadora doméstica sem carteira" representa 9,1% das mulheres ocupadas.

Auxílio emergencial – hoje um apoio de fachada

O auxílio emergencial fez toda a diferença no começo da pandemia, mas a queda do valor a partir de setembro provocou o precoce movimento de busca de trabalho. Para Daniela Gorayeb, o valor hoje é insuficiente e está corroído pela inflação. “Os critérios do Governo Federal para retomada em abril de 2021, levando em conta apenas o cadastro de março de 2020, estão fora da realidade devido à piora da crise econômica e sanitária. Muitas empregadas domésticas, por exemplo, perderam depois seus empregos”. Por outro lado, aquelas que trabalhavam em restaurantes e no comércio também viram esses estabelecimentos fecharem. “O certo seria voltar aos valores anteriores, corrigidos. A inflação para os pobres, que consomem os itens básicos, com os aumentos de gás, grãos, combustível, levou a uma perda que pode chegar a 15% do valor original do auxílio.”

Os números do trabalho precário e o desemprego oculto

O estudo feito pela Facamp destaca que duas categorias são particularmente relevantes: a subocupação e a força de trabalho potencial (FTP). Elas capturam a precariedade do mercado de trabalho e a vulnerabilidade das trabalhadoras. No primeiro caso, elas estão ocupadas, mas de forma precária; no segundo, elas se encontram fora da força de trabalho contra seu desejo – por desalento ou por indisponibilidade. Segundo o IBGE, entre as 2 milhões de mulheres a mais que encontraram ocupações ou procuraram emprego no 4º trimestre de 2020 (+5,6%), 390 mil exerciam subocupações (+11,8%) e outras 195 mil se encontravam desocupadas (+2,7%). No total, 8,4 milhões de pessoas perderam suas ocupações em 2020. A indisponibilidade, alimentada pelas circunstâncias da pandemia, apresentou forte crescimento: 3,6 milhões de mulheres se declararam indisponíveis.

Rendimento médio: mulher negra em último lugar

No Brasil, o rendimento médio no 4º trimestre de 2020 foi de R$2.507,00, sendo o maior o de homens brancos ou amarelos (R$3.605,90) e o menor de mulheres negras ou pardas (R$1.616,80). Elas recebem o equivalente a 64,5% do rendimento médio dos brasileiros. Essa desigualdade entre homens e mulheres vai crescendo junto ao nível de instrução. Na conclusão do estudo, as pesquisadoras do NPEGen apontam que o número de mulheres desocupadas atingiu, no 4º trimestre de 2020, seu ponto máximo da série história da PNAD Contínua. Ao todo, havia 7,4 milhões de mulheres procurando emprego, disponíveis para o trabalho, mas sem conseguir encontrar ocupação. Praticamente quatro a cada cinco pessoas indisponíveis eram mulheres, que estão fora da força de trabalho contra o seu desejo.

Acesso ao relatório completo: https://www.facamp.com.br/pesquisa/economia/npegen-facamp/

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